O milagre chamado Jira
O lugar já era uma zona.
Nada documentado.
Prioridade mudando todo dia.
Demanda chegando por WhatsApp.
E-mail, Teams, ligação, conversa de corredor.
Ninguém sabia quem decidia o quê.
Nem quando.
Nem por quê.
Aí surge ele.
O Scrum Master.
Com uma certeza absoluta no olhar:
“Gente, isso aqui é falta de processo.
A implantação do Jira vai resolver tudo.”
E naquele momento,
algo morreu dentro de cada dev.
🛠️ A fé na ferramenta
O caos não era pequeno.
Era estrutural.
Mas o Scrum Master acreditava piamente que:
- criar board resolve desalinhamento
- criar status resolve decisão ruim
- criar workflow resolve bagunça
- criar ticket resolve falta de critério
O problema nunca foi cultura.
Nunca foi gestão.
Nunca foi prioridade mal definida.
Era só…
falta de Jira.
📋 O grande rollout do Jira™
Primeiro passo: criar 47 colunas no board.
- To Do
- To Do Prioritário
- Em Análise
- Em Análise Técnica
- Em Desenvolvimento
- Em Desenvolvimento Bloqueado
- Em Validação
- Em Validação Parcial
- Aguardando Aprovação
- Aguardando Aprovação do Cliente
- Quase Pronto
- Pronto (mas não em produção)
Ninguém entendeu nada.
Mas ficou bonito.
🧠 O caos agora… documentado
Antes do Jira:
- tudo era confuso
Depois do Jira:
- tudo continuou confuso
- só que agora com ticket
A demanda ainda vinha no meio da sprint.
A prioridade ainda mudava todo dia.
O prazo ainda era mágico.
Mas agora alguém sempre dizia:
“Coloca no Jira.”
Como se isso resolvesse alguma coisa.
📊 O efeito colateral inesperado: a verdade
E aí aconteceu algo curioso.
Pela primeira vez,
o caos começou a gerar números reais.
O Jira começou a mostrar:
- lead time absurdo
- tickets parados por semanas
- sprint estourando toda vez
- urgências atropelando tudo
- retrabalho constante
- backlog crescendo sem controle
Aquilo que antes era “sensação”
virou dado.
E os dados eram…
constrangedores.
😬 Quando ninguém gostou do que viu
De repente, surgiram perguntas desconfortáveis:
- “Por que nada termina na sprint?”
- “Por que tudo vira urgente?”
- “Por que a velocity despencou?”
- “Por que o time parece sempre atrasado?”
O Jira não resolveu o caos.
Mas provou que ele existia.
E em escala industrial.
🤡 A frase clássica (parte 2)
Quando alguém finalmente percebeu:
“O problema não é o Jira.
O Jira só mostrou o tamanho do problema.”
O Scrum Master respondeu, firme:
“Isso é só uma fase de adaptação.”
Sim.
A fase em que a empresa descobre
que o problema nunca foi a ferramenta.
🔄 O processo virou burocracia
Agora, além de sofrer, o dev precisava:
- criar ticket
- linkar ticket
- atualizar status
- comentar progresso
- justificar atraso
- explicar bloqueio
- fechar ticket errado
- reabrir ticket errado
Nada ficou mais rápido.
Nada ficou mais claro.
Só ficou mais visível
o quanto tudo era ruim.
🚨 A verdade que ninguém queria
Ferramenta não cria processo.
Ferramenta não cria cultura.
Ferramenta não cria clareza.
Ferramenta não cria responsabilidade.
Ferramenta só expõe o que já existe.
E quando o que existe é caos…
o Jira vira só um espelho cruel,
mostrando números que ninguém queria ver.
🪦 Moral da história
Se o lugar é uma zona,
implantar Jira não resolve.
Mas ele faz algo importante:
- mostra o caos
- quantifica o caos
- tira o argumento do “achismo”
O problema é que,
quando a verdade aparece…
nem todo mundo quer consertar.
Alguns preferem culpar o time
por aquilo que sempre foi ruim.